Vozes que voam
Este lugar é o espaço
para me espraiar à vontade
na linguagem que conheço
a de todas as descobertas
e de todas as possibilidades
Confesso: não me agradam
os muros
as cercas
os limites
os obstáculos
Não me agrada a sensação de estar
confinada
entalada
amolgada
sufocada
Por isso, irei sempre juntar-me a essas vozes
que pregam no deserto
que alongam o olhar
que esticam o pescoço
e abrem as asas...
(do tempo das surpresas, Março, 2010)
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Coisas simples: a ironia divina
A Europa esqueceu a Islândia mas a natureza tratou de lha lembrar...
O abraço fatal do PS já envolveu sociólogos livres e independentes como António Barreto...
O Presidente diz que não é grego mas está a ver-se grego para regressar a Portugal...
E, finalmente, uma line perfeita para os tempos políticos actuais. A line é do Felix, personagem do filme Encostada às cordas, com a Meg Ryan: raw is workable, rotten isn't...
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Viagem no tempo-espaço com um ramo de oliveira
Esta é a minha semana preferida do ano, a que vai do Domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa. Assim como o meu mês preferido é o Maio florido. E a estação do ano, a Primavera. E a flor, a rosa frágil e efémera, mas tão perfumada, de Santa Teresinha.
Num tempo em que se desvalorizam os símbolos, os rituais a marcar o nosso percurso, a dar-lhe um ritmo e um sentido, e a lembrar-nos a nossa condição frágil e transitória, mas única e irrepetível, mantenho só para mim os meus próprios marcos. E esta semana é um deles.
E não consigo evitar, tal como o protagonista do Life on Mars, viajar no tempo até essa Páscoa nos finais dos anos 60, em que levei um ramo de oliveira, tal como todos nesse Domingo levaram, nesse Domingo de Ramos.
Eu era, digamos, o que se pode chamar uma criança impressionável, levava tudo muito a sério. Vivia a realidade como se fosse um filme e via os filmes como se fossem realidade. Aquele ramo de oliveira simbolizava a paz. Protegi-o como a uma preciosidade.
Hoje, depois do regresso no tempo-espaço, vejo o terrível paradoxo da natureza humana nesse percurso de Cristo, aclamado e acarinhado pela multidão, para pouco tempo depois escolherem Barrabás. Este é um dos dilemas da natureza humana.
O próprio percurso de Cristo, nesse período, revela-nos, de certo modo, a história humana que se repete pelos tempos sem fim todos os dias e em todos os lugares do mundo. Revela-nos que a paz é efémera, um impulso frágil, um entusiasmo. Como se as pessoas não conseguissem nela permanecer por muito tempo ou não conseguissem coabitar sem conflitos. Cristo foi acarinhado pela multidão nesse dia de ramos... para, na hora da verdade, em que a paz era mais necessária, o discernimento, a consciência, a empatia, ser esquecido e abandonado.
Esta é uma visão muito simplista da história, eu sei, Cristo tornou-se incómodo para os representantes religiosos (esqueço-me sempre dos termos correctos, enfim, para a hierarquia religiosa, os sábios, os doutores, que um dia o tinham ouvido em menino no templo). A sua mensagem comprometia a sua posição, tal como hoje, os representantes da hierarquia, e já nem me refiro apenas à Igreja que até tem insistido nisto, mas ao poder temporal. Preferem calar a escravização em curso do povo que supostamente representam porque os elegeu, a perturbar a lógica injusta e ilegítima de privilegiados (a "nova elite") e escravos (o contribuinte de fracos rendimentos e o reformado indefeso). Sim, a mensagem de Cristo comprometia a diplomacia conveniente com o poder de Roma.
Mesmo que Cristo tenha definido as fronteiras naquela frase A César o que é de César, a Deus o que é de Deus, não se submeteu à lógica da linguagem do poder, colocou-se num plano imune a essa lógica terrena, o seu reino não era deste mundo, e isso era incompreensível, inaceitável. Ainda hoje me interrogo: a que é que Cristo se referia, em que plano ou dimensão, quando define aquela fronteira enigmática?
Inclino-me a pensar que essa frase ainda hoje é mal interpretada por muitos. Porque a mensagem de Cristo compromete, desde logo, esse limite, ao colocar todos na dimensão de filhos de Deus, todos, sem excepção, numa irmandade igualitária. Isto implica a libertação da escravidão, a sua mensagem não pode conviver com donos e escravos, com a linguagem do poder. E os homens que espalham a mensagem não podem ficar indiferentes a essa lógica que escraviza, simplesmente não podem. A sua mensagem também implica a dignificação da vida de cada um, como única, preciosa, irrepetível. Novamente, o que fazeis ao mais pequeno de vós é a mim que o fazeis.
Mas poderia a frase significar que estes dois planos, o terreno e o divino, nunca se encontram, nunca coexistem? E, tal como no filme Rio sem Regresso, quando Marilyn sonha viver num lugar onde as pessoas sejam tratadas como seres humanos, Robert Mitchum responde: Isso é no céu...? Como se não fosse possível viver essa paz e respeito mútuo no plano terreno? Mas não faz sentido. Essa é a lógica do mártir, e ficaria por aí, pela sua afirmação libertadora através da sua morte, e pela repetição de martírios sem fim à vista que não seja perpetuar a vítima e reforçar o poder do predador. Já para não falar dos mártires de que não sabemos, essa pena máxima silenciada, sem julgamento sequer...
E tudo isto num simples ramo de oliveira que levei nesse Domingo de Ramos numa Páscoa de finais dos anos 60...
É por tudo isto que em vez de paz prefiro dizer empatia, porque é a capacidade humana de sentir o que o outro sente, a única que permite essa libertação da lógica da linguagem do poder, que cria conflitos porque não sabe (não pode) viver em paz, porque precisa de dominar e manipular para preencher o seu vazio interior, porque é o ódio e a morte que o motivam (e que também definem a sua acção).
E sim, é possível aprender a viver na cultura da amabilidade na diversidade. E sim, é possível identificar as sementes de violência e os "falsos deuses" que dela se alimentam. E sim, é possível a responsabilidade individual, cada um no seu papel, na colaboração mútua. E sim, é possível uma nova organização social mais livre e, ao mesmo tempo, mais equilibrada e justa e, por isso mesmo, mais inteligente também.
Também aqui: sobre a composição de Jesus Christ Superstar.
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Coisas simples: as memórias felizes
Não é propriamente nostalgia, mas mais uma ligação a sensações, emoções e sentimentos que experimentei ao longo dos anos em determinados momentos felizes.
Geralmente é pela música, uma música determinada, que tenho acesso a esses momentos felizes. Mas também pode ser um dia de sol, como hoje, ou gestos simples como cuidar das plantas, ou cantar, ou dançar...
Retenho esses momentos felizes, essa claridade, essa respiração, para me acompanharem e inspirarem, uma vez que o que nos rodeia hoje em dia não é muito estimulante nem encorajador.
Ouvir falar da violência escolar sem castigo, de uma gestão escolar ausente... e do seu resultado dramático, um pré-adolescente que se atira ao rio e de um professor que se atira da ponte, porque chegaram ao limite do sofrimento suportável...
Ouvir um Presidente em entrevista, e acompanhá-lo penosamente no seu dia-a-dia mais que cinzento e impessoal, mais que ausente, talvez mesmo de um outro planeta...
Ouvir um ministro insultar os gestores locais, os que estão mais próximos das populações e lhes sentem as necessidades quotidianas...
Como disse Mota Pinto em discurso na AR: a ausência de verdadeiros estadistas nas rédeas do poder... Prisioneiro do seu calculismo político, o governo continua a colocar em segundo lugar o interesse nacional...
Sim, se não fosse a nossa incrível capacidade de nos distanciarmos da mediocridade que nos rodeia, da maior loucura e insensatez... e graças a estes neurónios, os nossos melhores aliados, que nos permitem deslocar a atenção para coisas bem mais merecedoras da nossa atenção e cuidados... sim, se não fossem osintervalos saudáveis onde se pode ir respirar para voltar à arena com outra disposição, outra energia, outro entusiasmo...
Podemos trazer para o nosso presente esses tempos felizes, não por desejarmos a eles voltar, mas simplesmente para nos lembrarmos dessas sensações, emoções e sentimentos, o melhor que somos.
Respirar livremente nessa claridade, nessa tonalidade, que é nossa e irrepetível, e não nos deixarmos contaminar pelo ódio que pressentimos à nossa volta, e o medo, que alimenta o ódio. E o mal, que se alimenta do medo e do ódio.
Haverá sempre loucos que tentam interferir na vida das outras pessoas, condicioná-las, utilizá-las, escravizá-las. E pessoas que se deixam deslumbrar por esses "falsos deuses" (Arno Gruen) que usurpam o poder. Este fenómeno será tema de um próximo post pegando neste autor que nunca esteve tão actual.
Sim, haverá sempre loucos a atropelar outros, porque se julgam superiores, de outro plano, acima das regras e dos limites, acima das éticas e dos equilíbrios. E haverá sempre conformistas a servir de capacho, a manter-lhes o cenário, a cobrir-lhes a retaguarda, a esconder-lhes as tropelias.
Retenho, pois, essa claridade e essa tonalidade, até sentir que, para lá de tudo, dessa ilusão maior, somos uma existência breve e fugaz...
Deixemos, ao menos, no nosso caminho, uma influência benigna. E que a nossa influência seja tão leve e imperceptivel que não seja sequer possível calculá-la ou avaliá-la. Essa é, para mim, a poesia mais elevada, a filosofia de vida perfeita.
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Coisas simples: alucinações auditivas
Desde 2ª feira que ando com esta perplexidade. Será que sofri uma alucinação auditiva ou ouvi mesmo esta frase a Miguel Sousa Tavares no final da entrevista a um ex-investigador da PJ com o livro apreendido: Já lhe arquivei a entrevista...?
Será que ouvi bem?
Nesse caso, como posso ter ouvido esta análise ao mesmo jornalista no início do programa: a liberdade de expressão nunca esteve em causa no país, mesmo referindo, com o maior desplante, que sempre houve pressões sobre jornalistas, etc. e tal?
Diferente, muito diferente, tinha sido a entrevista ao PM uma semana antes. A primeira do programa Sinais de Fogo.
E Candal, poucos minutos depois, a interromper a Zézinha na TVI24, que o PM já tinha dado o esclarecimento cabal sobre o assunto numa entrevista a um jornalista conceituado... que o assunto já estava encerrado...
Bem, nesta 2ª feira o Sinais de Fogo transformou-se em fogueira inquisitorial, pelos vistos. O entrevistado tem o livro apreendido, não pode referir-se ao seu conteúdo, e é acusado pelo jornalista de vários delitos e nem sequer pode responder... Mas ainda conseguirá dizer: Está a pôr palavras na minha boca... isso não está no livro... Não leu o livro... Não leu o processo...
O jornalista já tem uma tese e trata-se de a impor. Aliás, já tem uma acusação formada, só falta a sentença. Pelos vistos, era arquivar a entrevista. Vá lá vá lá, podia ser pior...
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"Life on Mars"
Meus queridos amigos, não se pode voltar para trás. Simplesmente não se pode.
Até o protagonista de Life on Mars, que foi parar a 73 por engano, não se sente em casa. Desconfio que não é apenas por ter perdido tudo, a família, os amigos, o trabalho, o habitat. É uma diferença cultural imensa! De hábitos, de valores, de referências, de coordenadas.
Podemos até especular: ah, os loucos anos 20, os românticos anos 40, ou até ser mais ousados, o tempo dos salamaleques e dos duelos, porque não?
Mas hoje temos acesso a essas épocas, pelos livros e pelos filmes, sem os inconvenientes das suas enormes dificuldades.
Estou convicta que cada época exige as suas capacidades de sobrevivência e que se tivessemos o azar do protagonista de Life on Mars de irmos parar ainda mais longe, aos anos 20 ou 40, ou pior!, ao séc. XIX, não sobreviveríamos muito tempo. A nossa resistência de estufa, habituada a vacinas e comprimidos? Impossível mantermo-nos lá saudáveis por muito tempo.
Isto tudo para dizer o quê? Que a nível cultural, das referências e dos valores, mesmo os que não são assimilados por todos ou partilhados por todos, há já uma informação, um conjunto de factos, que foram interiorizados na memória colectiva. Factos que não se podem apagar simplesmente. É uma herança de um colectivo.
As excepções? As tribos isoladas de alguns pontos do globo, os Amish, os Mórmons, etc. O que implica necessariamente isolamento total ou quase total da contaminação cultural da sociedade, como está organizada.
Também incluiria aqui algumas populações de países mais pobres que, conforme Alvin Toffler previu, estão a ficar excluídas da informação global. E mesmo nos países com recursos, aumentarão essas franjas de excluídos, como ele previu.
Para o bem e para o mal, somos portadores de uma memória colectiva, de um conjunto de factos, de dados, de informação, a que já não podemos escapar ou negar. Herdámos esses manuais, esses dicionários, esses acontecimentos, essas alterações, a evolução tecnológica, científica, filosófica.
Voltar atrás é negar tudo isso. A nossa consciência colectiva já deu um salto, nem sei bem se será apenas um degrau ou dois, vejo-o mais como um salto sobre uma falha no caminho. Saltámos por cima de tanta coisa!, mesmo sobre valores éticos e morais que se julgaram intransponíveis.
Por outro lado, passámos a valorizar outros valores: a vida humana, por exemplo, adquiriu outro estatuto, embora ainda com imensas falhas. Na protecção das crianças e dos mais velhos, por exemplo, andámos mal, muito mal.
Mas na aceitação das diferenças de estilos de vida, vejam o enorme salto! As mulheres mais aguerridas pisaram o risco, nunca antes tolerado pelos homens, começaram a participar em áreas e a conquistar direitos. Este é aliás um dos pormenores culturais que mais choca o protagonista do Life on Mars e já se estava em 73!
2ª parte do post (ver Nota de esclarecimento):
A complexidade da natureza humana e a complexidade dos comportamentos, das opções de vida, não pode agora ser apagada da nossa memória colectiva, porque isso seria negar o avanço cultural, filosófico, científico. Mas pior!, seria negar a própria natureza humana!
O filme agora aí, Um Homem Singular, mostra isso, essa complexidade. Talvez daí o interesse dos espectadores: tem tido uma boa audiência. Essa curiosidade pode dever-se a Tom Ford, mas alguma coisa me diz que estamos ávidos de uma perspectiva, de uma compreensão, sobre a complexidade humana.
Nunca falámos colectivamente sobre isso, foi-nos imposto um modelo de vida, como se se tratasse de uma moda, a camada superficial do tema, a parte espectacular, confundindo público e privado, e ainda por cima uma lei fracturante, que nem sei se é a que melhor responde a direitos equivalentes à da maioria dos cidadãos e à forma como a maioria organiza a sua vida.
Mas agora responder a esse erro com outro erro, é que não me parece avisado e sensato. Trata-se de pessoas, das suas vidas, de naturezas e percursos. E trata-se de liberdade também. Já não podemos andar para trás. Nem seria desejável.
É por isso, a meu ver, que este filme Um Homem Singular, é um bom ponto de partida para uma análise e uma reflexão colectiva, calma e distanciada. Distinguindo os planos, destacando as prioridades, vantagens e desvantagens deste e daquele modelo.
Talvez até dê para, os que se organizam de forma diversa, com diferentes opções de vida e de organização familiar, verificarem se se revêem nas associações e organizações que os representam, ou mesmo na forma como os partidos pegaram (abusiva e oportunísticamente, a meu ver) nas suas pretensões, a forma como o fizeram, perfeitamente inábil. E recomecem do zero. Esta lei não lembra ao diabo, realmente, e poucos darão esse passo, o casamento. Muitos certamente desejariam outro tipo de contrato, equilibrado nos direitos e específico a cada situação.
Agora, não dar sequer ao outro o direito de existir apenas por ser diferente, é que me deixa perplexa. De certo modo já esperava reacções excessivas a propagandas que foram, também elas, excessivas, mas negar a existência do direito de existir aos homossexuais? Negar a homossexualidade?
Foi sempre a negar alguma parte da natureza humana, que surgiram as maiores opressões ditatoriais. Esta negação, esta agressividade a que pode chegar este debate, é também um sinal de alarme.
Numa democracia respeitam-se as diferenças e procura-se equilibrar direitos e deveres de todos os cidadãos. É também esse o significado da liberdade. E também foi esse o significado de estar no dia 11 em frente da AR.
Nota de esclarecimento a 20 de Outubro de 2013: Primeiro pensei simplesmente deletar as partes dos posts que já não correspondem à minha actual assimimilação-síntese cultural. Esta mudança afinal até pode corresponder apenas a um regresso à minha consciência vital inicial.
Depois ocorreu-me o seguinte: além de ser batota apagar o que nos deixa hoje perplexos, o quê?, já pensámos assim?, o quê?, porque não utilizar essa transição mental-cultural como um magnífico e útil exemplo de que estamos sempre a mudar, a evoluir, a expandir a consciência?
Portanto, caros Viajantes, a parte deste post após a referência ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, já não corresponde minimamente ao que hoje considero lógico-compreensível-viável-legítimo. E vou mais longe: é muito provável que nunca tenha sido uma questão essencial para mim mas apenas uma teimosia mental, um pormenor legislativo que não me pareceu lógico na altura.
Desde que me conheço que aceitei as pessoas incondicionalmente. Cresci rodeada de livros e filmes e isso marca uma pessoa. Penso que parte do choque cultural que senti quando saí dessa cápsula inicial familiar, e dos equívocos que sofri nas interacções sociais e que me tornaram mais tímida e ansiosa do que era inicialmente, se deveram precisamente a esse mundo que assimilara nos livros e filmes que me tinham alargado definitivamente as fronteiras culturais.
Por isso imaginem a minha perplexidade ao reler esta segunda parte do post que já nada me diz pessoalmente. Como perdi eu tempo com pormenores legislativos? Porque me envolvi em debates que hoje já não fazem qualquer sentido? Porque considerei que sabia o que era melhor para quem tentava encontrar uma nova forma de oficializar social e juridicamente uma família?
Mas a primeira parte do post aproveita-se, a meu ver, é uma ideia que me tem acompanhado quendo ouço falar em viagens no tempo ou em contactos com espécies de outros planetas. Isso sim, é que é um desafio mental que vale a pena.
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Coisas simples: os sinais de alarme
Lembrei-me deste paralelismo entre o percurso de um colectivo e o crescimento, a maturidade individual.
O percurso de um colectivo é sempre atribulado e implica cortes e rupturas, solavancos e sacudidelas. Há fases de acalmia e de equilíbrio, não necessariamente o equilíbrio desejável, mas o conveniente a quem domina, e nessas fases o poder tenta consolidar a sua influência.
Quando a situação ultrapassa os limites do suportável, há um sinal de alarme. Pode ser apenas um sinalzinho luminoso intermitente, silencioso, mas fica ali a piscar, a piscar.
Como previsto, e o poder é quase sempre previsível, quem domina a situação tenta minimizar aquele sinal de alarme, aquela perturbação é para apagar, quem são os histéricos?, os ignorantes?, os saudosistas?, os ambiciosos? (1)
E o alarme ali, teimosamente, a piscar.
O poder reage, em todos os locais onde o alarme piscar, lá estarão os apagadores de alarmes a tentar minimizar a luzinha intermitente.
Mas agora até o filósofo, que falara no tempo dos antecessores, nessa outra situação, vem de novo alimentar a luzinha intermitente: já não é só medo de existir, é o não dito e, pior!, o não inscrito. Como argumentar se é tão evidente essa negação constante, essa não-permanência, essa não-continuidade? Esse eterno presente sem passado nem futuro, essa promessa vazia, não-concretizável? E em que o outro não tem razão, a sua opinião não é válida, não existe?
Aqui o poder hesita e resolve lançar a confusão. É nesta fase que nos encontramos, vozes desencontradas, agitadas, agressivas, entrincheiradas. É o clima ideal, adequado, à não reflexão.
Só que o sinal de alarme já é mais luminoso e não se deixa apagar. Não se deixa envolver em agitações de circunstância. Observa e pensa, com a distância emocional necessária para observar correctamente e pensar de forma eficaz. (2)
(1) Já respondi ali atrás a todas estas críticas ao primeiro sinal de vida do cidadão comum, a petição e a manifestação "Todos pela Liberdade", mas ainda faltava esta da ambição. Aceito. Querem lá ambição maior do que esta, da liberdade? Querem lá ambição maior do que uma democracia de qualidade?, de uma vida colectiva baseada no respeito mútuo e na confiança?, do direito de todos o cidadãos a uma vida livre de condicionalismos insuportáveis, de fracturas sociais, de alterações súbitas de valores e formas de vida, da domesticação sistemática?, do direito a uma vida digna, em que cada cidadão existe para além da sua condição de eleitor e contribuinte, escravo portanto, o que sustenta a máquina e os seus caprichos e aventureirismos?
(2) É claro que numa comunidade humana, baseada na natureza humana, nem todos os sinais de alarme são motivados pelas melhores razões, as da defesa da qualidade de vida de um colectivo, de uma comunidade, de um país. Mas quando uma comunidade deixar de ter sinais de alarme, a avisar excessos e desvarios, estará perdida.
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Coisas simples: as emoções
Que semana esta! Como é possível que uma pessoa como eu, que já passou há muito a fase da idade impressionável, ainda se deixe envolver pela emoção e entusiasmo, só por causa de um primeiro sinal de vida do cidadão comum, por exemplo?
Mas foi mesmo assim. Outras novidades entretanto me emocionaram, por razões diferentes, mas aquele primeiro sinal de vida foi o que me pôs o coração a bater mais depressa e a meter-me a caminho.
Se esta iniciativa alterou alguma coisa? Se teve algum impacto? Ainda é cedo para o dizer.
Mas no plano simbólico foi significativa. É um primeiro sinal de vida. De uma sociedade civil que já se dava como amorfa, indiferente, em estado comatoso.
Se as opiniões pós-manifestação me impressionaram ou incomodaram? Não, mas deixaram-me perplexa. O que é que os críticos da manifestação entendem por liberdade? A mim não me incomoda nada quem não esteve lá. São tão livres de não estar como eu de estar.
Quanto aos comentários deselegantes e até grosseiros, porque a ironia inteligente não é o seu forte, também não me incomodam nada, a não ser as emoções que revelam, esse subterrâneo de agressividade que os caracteriza: ódio e raiva, por exemplo, são emoções que me desagradam, confesso.
Quanto ao trabalho jornalístico, uma desgraça. No "Público" o texto refere mais de 100 pessoas mas na fotografia aparece apenas uma: um senhor segura um cartaz e por trás vemos a escadaria, a Assembleia e um triângulo de céu azul. Bonito! Quem não passou em frente do grupo, isto é, a maior parte dos leitores do "Público", ficou com a ideia, erradíssima, da geração da maioria dos participantes da manifestação, por exemplo. E esse seria o dado essencial da manifestação. Pois é, falharam no essencial: a maioria dos participantes pertence às gerações pós-revolução de 74. Eu apontaria mesmo para uns 80%, os manifestantes nascidos nos anos 70 e 80. Isto já diz muito do significado da manifestação. Uns 15%, das gerações que eram crianças ou adolescentes (o meu caso) na revolução de 74. E os tais 5% da geração representada pelo senhor da fotografia. Que rico jornalismo o do "Público"!
Aqui também se iniciou um novo conceito de manifestação: deixa de ser a pose ou o slogan, para ser um encontro descontraído de pessoas que partilham uma ideia e uma mensagem. Essa ideia e essa mensagem é transmitida através de uma petição que é entregue no local adequado.
A presença das pessoas ganha outro significado: estão lá, sabem porque estão lá, e isso lhes basta. No final, a promotora da petição agradece a presença de todos e batem-se palmas.
Esta cultura do encontro, numa ideia e numa mensagem que une um grupo heterogéneo de pessoas, esta cultura da amabilidade e do respeito pelas diversidades, é uma lufada de ar fresco para quem viveu numa cultura de autêntica divisão por subgrupos, essa pressão insuportável e medíocre de ideias feitas e de preconceitos.
Esta cultura do respeito e da amabilidade na diversidade é a adequada numa democracia de qualidade.
Penso ter apontado o essencial desta petição e desta manifestação: há aqui um salto cultural e geracional. É esse, a meu ver, o seu primeiro significado.
Nasce nos blogues e no twitter (o que me agrada pensar que o José Manuel Fernandes faz muitos mais estragos à cultura da seita das pressões, no twitter, do que fazia no "Público"!), nesse espaço de liberdade, num universo paralelo ao dos jornais e das televisões, onde a liberdade está cada vez mais ausente.
Outro significado: não há qualquer hipótese hoje em dia de manter esta cultura da mediocridade. Pode levar mais tempo do que desejaríamos, mas este é o primeiro sinal desse salto cultural e geracional, queiram ou não admiti-lo.
Recentemente um amigo, numa conversa animada sobre séries de televisão, ao ver quais as minhas preferidas, referiu de forma certeira: Gostas de ver resultados rápidos.
É verdade, nunca apreciei séries como os Perdidos, que ele acompanha desde o início, por exemplo.
O nosso Alan Shore (Boston Legal) resolve os casos em tribunal e ficamos logo a saber o veredicto. Mesmo na série Flashforward vamos tendo alguma informação que nos permite ir compondo o puzzle final. E agora, na Lie to Meos resultados estão logo à vista, na observação científica das reacções faciais e corporais das pessoas. Vale a pena ver. A sério! Já aprendi uma ou duas reacções que revelam a mentira, por exemplo. É muito útil. Também já consigo identificar o ódio, a raiva, o desprezo, apenas pela expressão facial.
Bem, sobrevivi a esta semana e é isso que importa.
Correcção estatística: Depois de ver alguns vídeos da manifestação, talvez deva corrigir aqui as minhas primeiras estatísticas. Embora não se trate de nenhum estudo sociológico, gosto de analisar os fenómenos e aqui a representação por gerações tem um significado para mim.
Assim, talvez a minha geração e a imediatamente posterior, isto é, as que eram crianças e adolescentes na revolução de 74, estejam melhor representadas do que inicialmente contabilizei: em vez dos 15%, aí uns 30%. Mas ainda assim, as gerações pós-revolução de Abril são as que compareceram em maior número.
A meu ver, a distinção direita-esquerda é secundária. Porquê? Porque ninguém tem o monopólio do respeito pela liberdade. Essa consciência é individual, não é colectiva. Começa em cada indivíduo. Isso é que determina como se vai comportar no colectivo.
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Pequenas alegrias: sinais de vida do cidadão comum
Quando era miúda havia na televisão (a preto e branco e de um só canal) uma série que adorávamos: Os Vigilantes da Floresta. Um grupo de rapazes e raparigas que protegia a floresta de incêndios, cortes ilegais, etc. Tinham sempre que fazer, como se calcula, porque a protecção de uma floresta exige prevenção. E os nossos heróis eram muito previdentes, estavam sempre atentos, e sobretudo, vigilantes.
Hoje já não há séries assim. Quando espreito as séries que os miúdos vêem fico arrepiada. Muita tecnologia mas pouca inspiração para uma responsabilidade individual ou uma acção cívica, colectiva. Vejo violência, emoções básicas como o ódio, a vingança, a destruição pura e simples.
Mas voltando aos nossos vigilantes, é essa atitude que eu esperava há que tempos da sociedadade dita civil, a do cidadão comum! Um único sinal de vida! Porque uma sociedade dita civil que esteja sossegadinha, caladinha, indiferente, amorfa, é uma sociedade doente.
Tudo o que vale a pena exige atenção, cuidados, vigilância. Prevenção. Todos os dias. Refiro-me a coisas tão simples como a democracia, a liberdade, uma vida colectiva saudável, baseada na confiança. Confiança uns nos outros e confiança nos responsáveis de cada área de gestão do nosso colectivo.
O primeiro sinal de vida e iniciou-se na blogosfera! Foi essa a minha alegria, uma Primavera antecipada!
Se há uma onda de histeria? Não sei que fenómeno surge após uma apatia prolongada, não sei o que vem imediatamente a seguir ao desânimo... um entusiasmo febril?
Se há motivações mais egocêntricas? Cada um age segundo a sua própria consciência. Mas de uma coisa estou segura: muitos de nós sentir-se-ão reconfortados por saber que não estamos sozinhos no nosso cantinho, que afinal somos muitos a pensar o nosso colectivo, atentos ao que se passa. E agora mais do que atentos, vigilantes.
Se há oportunismo? E isso pega-se? Santo Deus!, o oportunismo pré-existe em todas as áreas da nossa vida colectiva. Faz parte. Uns criam, constroem, outros penduram-se e ficam com os louros. Existe em todo o lado. Hoje onde existe até mais oportunismo é no próprio estado, na sua cultura de raíz, intrínseca, que vê o cidadão apenas enquanto eleitor e contribuinte. Querem maior oportunismo do que esse, fazer negociatas com o trabalho do contribuinte? Sem dúvida que o monopólio do oportunismo pertence hoje ao estado.
Como os Vigilantes da Floresta, é assim que vejo esta iniciativa. Um primeiro sinal do cidadão comum a exigir os esclarecimentos que nos são devidos, uma informação verdadeira, correcta, adequada.
Um primeiro sinal de alarme também: o que falhou? O que está a falhar? A nível dos responsáveis pela gestão do poder.
Um primeiro sinal da necessidade urgente de uma reflexão colectiva profunda e abrangente, da decadência geral das áreas-chave da democracia.
Se o manifesto interpela directamente o PM? Bem, se é o responsável da gestão do nosso colectivo com mais poder actualmente (poder a mais, a meu ver, mas o sistema deu-lho e daria mais se não houvesse aquele pormenor tão português da violação do segredo de justiça)... é natural que seja ele o interpelado, não é?
Se é um ataque pessoal? Não o vejo assim. Para mim o que está hoje em causa é o próprio sistema democrático, a sua organização, e o próprio regime, que neste momento me parece incompatível com a democracia. Se queremos uma democracia com tudo o que implica, participação, vigilância, responsabilidade, este sistema e este regime como estão, não servem.
Assim sendo, estão todos envolvidos na reflexão. Terão de ser avaliados pelo seu desempenho: governo, partidos, áreas-chave como a Justiça, a Procuradoria-Geral da República, o Banco de Portugal, a ERC, a da concorrência dos mercados (terei de ir ver qual é a designação). É que parece que só o Tribunal de Contas está a funcionar de forma eficaz, além da máquina fiscal, claro!, afinal é de lá que vão retirar parte do money money para os seus excessos e desvarios...
O cidadão comum quer ser esclarecido, em primeiro lugar sobre o que realmente se passou a nível do condicionamento da informação a que tem direito. Certo?
Porque se o cidadão comum tivesse tido acesso, como era seu direito, à informação correcta sobre os números reais do défice, da dívida pública, do desemprego, da emigração, do estado real do país, e não à ficção generalizada nos jornais e nas televisões, talvez até os resultados das últimas eleições tivessem sido ligeiramente diferentes, não acham? É essa a dimensão da liberdade num país democrático: direito a uma informação fidedigna.
Se um dia destes se fizer a anatomia das últimas eleições legislativas, vai ser interessante perceber até que ponto todo o sistema esteve envolvido na mentira oficial. Todo o sistema.
Ah, já me ia esquecendo: Também se chamou a esta manifestação um folclore. Tudo bem. Aceito. Sempre será um folclore mais criativo do que o folclore transmontano (a perspicácia de Pacheco Pereira...), com que nos bombardearam diariamente estes 5 anos...
As tentações partidocráticas: Espero que o cidadão comum se consiga distanciar de todas as tentações partidocráticas e não se deixe envolver pelas seduções de circunstância. É natural que os políticos sintam o ímpeto, o impulso (porque isso está-lhes na massa do sangue), de navegar na onda de um movimento da dita sociedade civil. Só nos faltava mais essa interferência, ainda por cima quando a avaliação e a reflexão que se exige, e que espero se inicie agora, envolve os próprios partidos, os da gestão do poder e os da oposição! Que escolham outros timings, que não façam coincidir as suas agendas políticas com iniciativas do cidadão comum, da dita sociedade civil. É o mínimo que se lhes pede.
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A importância da blogosfera
Pelo que observo no país, a blogosfera é hoje o espaço onde se encontra a informação mais fidedigna e onde se pode trocar ideias e opiniões.
É essa, a meu ver, a dimensão da sua importância, sobretudo num país onde a liberdade deixou há muito de ser um valor defendido e respeitado.
Esta última iniciativa de uma parte significativa da blogosfera, de lançar e divulgar a Petição "Todos pela Liberdade", é um exemplo da sua intervenção cívica. Numa democracia fragilizada como a nossa, esta é a dimensão da sua importância.
Num sistema que deixou de funcionar, onde as instituições-chave já perderam a credibilidade, onde falhou a "so called" separação de poderes, o tal equilíbrio necessário para o sistema democrático funcionar, onde qualquer governante mais "determinado" pode chegar e manipular a informação, porque o sistema o permite (não tem defesas nem travões), esta é a dimensão da sua importância.
Pode agora a generalidade da imprensa ou a generalidade dos jornalistas e comentadores televisivos vir negar o seu servilismo nestes últimos anos, que não pega. Simplesmente fizeram o que lhes mandaram: alimentar e manter a ficção nacional.
Pode agora o PS bradar que há vozes independentes que nunca foram cúmplices da situação a que isto chegou, que não pega. Nostálgicos ou modernaços, foram todos na onda, de forma absolutamente acrítica, de forma absolutamente conformista.
Quanto ao Presidente, que optou pela "cooperação estratégica" com um governo de maioria absoluta na altura, e que já revelava a tal sede de poder insaciável, que já atropelava direitos fundamentais da democracia, que nos embalava com propaganda governamental desligada da realidade, bem pode dirigir-se de novo ao País, com ar preocupado ou com sorriso de circunstância, que esteve sempre atento, que a democracia funciona, que já não pega.
E não pega também o discurso de parte da oposição partidária, que teve a oportunidade de defender a proposta que nos levou a votar neles, e acabaram a viabilizar este orçamento de estado.
Também os eleitores que voltaram a apostar nesta ficção, nesta proposta suicidária, bem podem em breve vir queixar-se que não sabiam, que ouviam os noticiários na televisão, que também não pega. Aliás, não estranharam que lhes tirassem do écran a Manuela que era tão popular?, o telejornal da TVI que batia todas as audiências? Não estranharam?
Não, não se trata apenas de um PM ou de um governo, trata-se de todo um sistema e de um regime que falhou. Completamente. Isso está à vista.
Qualquer "determinado" o pode manipular, usar e perverter.
Qualquer arrivista pode ter uma máquina de profissionais bem treinados ao seu serviço, e manipular informação, propaganda, jornais, televisões, dominar empresas públicas, até bancos, e as instituições-chave da democracia.
Um sistema assim não serve a democracia.
O que está em causa é muito mais do que a liberdade de expressão, e é muito mais do que um PM ou um governo, mas tem de se começar por algum lado.
É por isso que estou com os bloggers e cidadãos que se irão manifestar em Lisboa na próxima 5ª feira, dia 11.
Sim, esta é a dimensão da importância da blogosfera, sobretudo num país fragilizado como o nosso, economicamente, socialmente, moralmente.
O Estado de Direito falhou: Vejam ao estado a que chegámos. Foi preciso a sociedade civil reagir para ouvirmos algumas vozes até agora caladas e cúmplices. Alguns modernaços do PS; dois Conselheiros de Estado; o próprio PM a zurzir contra jornalistas e oposição...
Quem mais se seguirá? Alguém da Justiça? O ministro? O Procurador Geral?
E não é só isso: Nunca saberíamos nada de nada se o segredo de Justiça não fosse violado... Ao que nós chegámos. Mesmo que não se faça nada, porque nunca há consequências, mas... pelo menos ficamos a conhecer o making of da telenovela.
